Procura-se um príncipe desencantado para encantar uma princesa urbana. Não precisa ser bonito, basta conseguir envolvê-la em suas emoções. Precisa saber falar e ouvir, sobretudo entender de tempo para conquistar e ser conquistado. Não, não precisa gostar de poesia como gosta a maioria das princesas, mas se gostar de observar a lua e de contar estrelas já será uma grande dádiva.
Procura-se um príncipe desencantado com olhos, necessariamente, da cor da verdade, entusiasmantes reflexos de otimismo e algum charme de mistério e sedução na retina. Que saiba cantar uma letra inteira de música só para impressionar, e que diga, bem devagarinho, sussurrando no ouvido, que o horizonte é logo ali quando estiver diante dela.
Deve saber guardar segredos, pois não é bom se decepcionar com alguém a quem se confiou narrativas emocionais. Não é preciso ser de primeira nem de segunda mão, mas que esteja com o coração limpo para uma história novinha em folha, com todas as promessas que ela pode oportunizar.
Se o coração ainda estiver ocupado ou nebuloso com alguns tons de cinza, que esteja disposto a colori-lo de uma só vez com as mais variadas nuances de azul ou verde, conforme estiver a luminosidade do dia ou da noite. Ou dependendo da estação. Mas é imprescindível ter sensibilidade suficiente para perceber que sinceridade é uma palavra importante.
Deve descobrirr, em pouco tempo, que as emoções podem ser trocadas e somadas, nunca divididas. Tem que entender de limites, receios e carências, assim não haverá conflito ao primeiro sinal de mau tempo. É relevante que aprecie bem mais a primavera e as paisagens coloridas, ainda que deseje ardorosamente a insipidez (e sobriedade) do inverno.
Procura-se um príncipe desencantado, não que seja o extremo dos "encantados" de contos de fadas, mas que camufle os seus valores pessoais a fim de que possam ser descobertos aos poucos, um pouco a cada dia. Também não precisa ser uma enciclopédia para provar o quanto sabe do mundo, apenas teorizar de forma simples sobre as coisas do coração.
Precisa-se de um príncipe desencantado, com encantos lisonjeiros, especialmente singelos, que saiba muito mais sugerir do que mostrar, realizar do que planejar. Impreterivelmente, que tenha aversão a preconceitos e falsos moralismos. Que seja uma companhia agradável para se contar como foi o dia e quais são as expectativas para a noite monotamente previsível.
Para não cair de vez em lágrimas, precisa-se de um príncipe sem capa nem coroa, sem cabelos anelados, mas que seja um sonho real, enfeitado com girassóis e algumas margaridas para brincar de bem-me-quer. Ah, e não seria de todo desinteressante que entendesse de astrologia e gastronomia, para quem sabe, naqueles fins de semana chuvosos, interpretar a influência dos astros sobre a personalidade em meio ao jantar de massas e vinho.
Procura-se um príncipe desencantado para deixar de lado o passado de lembranças funestas, que ajude a escolher o novo papel de parede para a sala de estar, que tenha memória boa para não esquecer datas importantes e que jamais se debruce sobre o próprio ego, esquecendo que a vida solitária é bem mais dolorida.
Procura-se, enfim, um príncipe desencantado, sem cavalo branco, sem uma princesa adormecida, podendo até ser desprovido de valentia, mas que entenda de realidade sem, no entanto, imergir completamente nela, que tenha voz doce para nunca alterá-la em nome da imposição da vontade e que saiba, num simples beijo, num prazeroso beijo, num inesquecível beijo, transcender o corpo, atingindo direto o coração.

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